Elizabeth estava feliz consigo mesma. Tudo bem, sua família ia de mal a pior, ela sabia disso, mas o sucesso profissional angariado no fronte de sua mente mantinha essas preocupações sentimentalistas bem longe do primeiro plano de seus pensamentos.
Suas clientes eram cada vez mais ricas e cada vez mais famosas. Isso significava que teria cada vez mais clientes e cada vez mais dinheiro. Em termos simples, isso não tinha como significar nada ruim.
Voltava de seu consultório para casa, numa quinta-feira à noite. Não era muito longe, mas ela pegava um atalho por uma trilha na periferia da cidade do mesmo jeito. A estrada ficava vazia aquela hora, ela pisou fundo.
Um barulho: cascos. Um animal pulara na frente do carro. Ela desviou o volante com toda sua força, colocando tanta força no pedal do freio que seus músculos doíam com a contração. O carro girou uma, duas, três vezes, antes de bater de frente contra um poste. Muitas coisas passavam pela cabeça da mulher naquela hora. Por que raios havia um animal ali, tão longe do mato? O bicho não estava mais em lugar nenhum. Por que raios ela estava ilesa, mesmo considerando o estado de seu carro?
O veículo estava em pedaços. Perda Total, sem sombra de dúvida: o motor estava aberto como uma alcachofra cozida, uma fumaça leve saindo do metal fumegante. O para-brisa estilhaçou-se, caindo tanto para fora do carro quanto em cima dela. Havia metal, em barras, cacos e lâminas, para todos os lados. As chances de alguém sobreviver a um acidente como aquele eram quase inexistentes. Não só sobrevivera quanto estava ilesa.
Saiu do carro, cambaleando. Uma loja de espelhos logo ao lado, na calçada onde batera o veículo. Apoiou-se contra o vidro, olhando para um espelho na vitrine. Estava suada: suor frio. Não sentia tanto medo em sua vida havia um bom tempo. Sorriu, no entanto: sua bela pele estava intacta.
Não. Algo estava errado. Ela não sorria: seu reflexo sorria. Com um sorriso imenso e um olhar sinistro, seu reflexo esticou braços para fora do espelho, atravessando o vidro, e puxou Elizabeth para dentro. De repente, sua vida acabara.
Lembrava-se vagamente de ser arrastado através de um lugar estranho e inóspito: espinhos rasgavam suas roupas, mas não tocavam seu corpo. No entanto, sentia a dor dos cortes com toda sua devida intensidade, mesmo que sua pele permanecesse intocada. Sua consciência a abandonou.
Acordou num quarto grande e luxuoso. Parecia um quarto de alguma princesa em algum castelo de algum conto de fadas medieval. A cama era imensa, caberiam cerca de quatro ou cinco delas dormindo ali, confortavelmente. A mobília do quarto era linda, esculpida e construída da mais gloriosa madeira escura que, iluminada pelos diversos candelabros espalhados pelo quarto, refletiam uma tênue luz aconchegante. O pé direito do lugar era imensurável, aproximando-o das clássicas igrejas góticas, tendo até um par de rosáceas que serviam como janelas nas paredes de pedra. Um armário ficava logo ao lado da cama. Do lado oposto, uma escrivaninha de extensão um tanto exagerada, sobre a qual estavam depositadas penas e outros instrumentos de escrita, além de uma quantidade de papel maior do que Elizabeth se lembrava de já ter visto em vida.
Um armário abriu suas portas magicamente, revelando uma coleção de roupas de toda sorte: desde excêntricos e luxuosos vestidos góticos até o mais simples conjunto de jeans moderno, passando por algumas variações étnicas como quimonos ou burcas das mais variadas cores.
Havia somente uma saída daquele quarto: uma única porta na parede distante da cama. Uma fechadura cujo tamanho refletia aquele de todas as outras coisas da sala, ou seja, uma fechadura grandiosa ficava, imponente, no meio da porta, adornada por alguns desenhos dourados em sua superfície prateada.